
Há muito que defendo que a mobilidade ferroviária constitui uma verdadeira coluna vertebral da economia local, regional e nacional. Não apenas pela sua capacidade de transportar pessoas e mercadorias, mas também pela forma como se articula com os restantes modos de transporte, promovendo uma mobilidade mais integrada, eficiente e sustentável. Um comboio é muito mais do que um meio de transporte.
É um instrumento de coesão territorial e social. Liga pessoas, aproxima comunidades, transporta trabalhadores, estudantes, famílias, turistas e empresários e facilita o acesso ao emprego, à educação, à saúde e aos serviços. Ao mesmo tempo, contribui para a competitividade económica, para a sustentabilidade ambiental e para uma utilização mais eficiente dos recursos públicos. É, em grande medida, o tronco comum da interoperabilidade e da multimodalidade de uma moderna rede de transportes.
Por isso, a ferrovia deve ocupar um lugar central nas políticas públicas de mobilidade. Não basta modernizar aquilo que já existe. É necessário pensar o território como um todo, estudar a reabertura de ramais no interior, reforçar a oferta onde a procura o justifica e criar verdadeira capilaridade entre a ferrovia e os restantes modos de transporte. Portugal não pode continuar a aprofundar exclusivamente a sua . É necessário o país.
Precisamos de ligar melhor os distritos, aproximar o interior dos grandes centros urbanos e económicos e densificar progressivamente a rede ferroviária. Em termos simples, precisamos de colocar o país a viajar também na horizontal: do interior para o litoral, entre territórios do interior e entre estes e os grandes eixos nacionais, entroncando essa mobilidade na espinha dorsal da ferrovia existente.
Mas falar de ferrovia não é falar apenas de passageiros.
O transporte de mercadorias é igualmente estratégico. Cada composição ferroviária pode retirar das nossas estradas dezenas de veículos pesados, reduzindo o consumo de combustível, as emissões, a pressão sobre a infraestrutura rodoviária e os custos associados ao transporte. Portugal precisa, por isso, de uma estratégia integrada para o transporte ferroviário de mercadorias. Os nossos portos devem estar dotados de condições logísticas e técnicas que permitam operações ferroviárias rápidas e eficientes, desde a carga e descarga até ao encaminhamento das mercadorias para as principais plataformas logísticas nacionais e europeias. Portugal não pode desperdiçar a sua posição geográfica.
Temos uma costa atlântica, portos com capacidade de ligação aos grandes corredores internacionais e uma localização geoestratégica que pode representar uma vantagem importante nas cadeias logísticas europeias. Se queremos ser competitivos, temos de antecipar o futuro.
Mar, Comboio e Europa.
Este deve ser um dos princípios orientadores de uma política nacional de transportes e logística. Também no transporte de passageiros existe uma realidade que não podemos ignorar. A política de mobilidade não pode limitar-se à bilhética. Preços mais baixos podem estimular a procura, mas preço sem oferta adequada não chega. As pessoas precisam de frequência, pontualidade, capacidade, conforto, segurança, informação e ligações eficientes ao destino final. A verdadeira política de mobilidade deve, por isso, conjugar preço, oferta e qualidade de serviço.
Portugal prepara-se para receber novo material circulante, num investimento próximo dos mil milhões de euros, precisamente numa altura em que os padrões de mobilidade estão a mudar. O custo da habitação e do custo de vida levou muitas pessoas a procurar residência fora das principais áreas metropolitanas, mantendo, contudo, relações profissionais, escolares, familiares e económicas com os grandes centros urbanos. Esta realidade está a alterar a geografia da procura. Municípios como Entroncamento, Santarém, Cartaxo, Almeirim e Benavente apresentam dinâmicas populacionais que devem ser consideradas no planeamento futuro da oferta ferroviária.
Não podemos continuar a planear a ferrovia apenas com base na fotografia do passado. É necessário planear com os olhos postos no território que estamos a construir. Na Linha do Norte, particularmente nos períodos de maior procura, a frequência e a capacidade dos serviços devem acompanhar as necessidades da população. O mesmo princípio se aplica às áreas metropolitanas, onde diariamente assistimos a comboios com elevados níveis de ocupação.
A questão não é simplesmente colocar mais comboios na linha. É necessário planear a oferta, a infraestrutura, o material circulante, a capacidade da rede e a articulação intermodal como um único sistema. A ferrovia é, do ponto de vista operacional, uma atividade altamente exigente. Envolve infraestrutura, sinalização, energia, circulação, material circulante, manutenção, segurança, gestão de capacidade e uma complexa articulação entre diferentes entidades. Precisamente por isso, não pode sair do radar das políticas públicas. Deve estar no centro da estratégia nacional de mobilidade.
Investir na ferrovia é investir na competitividade económica, na coesão territorial e social, na sustentabilidade ambiental e na resiliência do território. Uma ferrovia forte não transporta apenas passageiros. Transporta desenvolvimento. Liga territórios. Aproxima pessoas. Move mercadorias. Cria oportunidades.
Portugal tem uma oportunidade que não deve desperdiçar. Precisamos de uma visão de longo prazo e de uma estratégia nacional que ultrapasse ciclos políticos e governe a mobilidade com base nas necessidades do território e nas exigências do futuro. A ferrovia não deve ser vista apenas como uma despesa pública, mas como infraestrutura estratégica de desenvolvimento nacional.
Porque investir no comboio é investir na capacidade de Portugal se ligar a si próprio - e de se ligar à Europa.
Mar, Comboio e Europa.
* Artigo de Opinião da Responsabilidade de - Cândido Napoleão Marques. Licenciado em Ciência Política e Mestre em Ciências Policiais.



